Notas sobre o fim do mundo - a criação da "Canção do Sul"

Ouça aqui a "Canção do Sul"

Diário do som, 25 de outubro de 2018

Às vésperas da viagem para o meu fim do mundo, me deparo com o Livro de Jack na estante. De alguma forma, Jack sempre está presente em minhas peregrinações, desde a época em que o conheci, nos meus dias de calouro quebrado da UnB. Durante uma greve longa, sem dinheiro e com muito tempo, viajei pelas páginas de "On the Road - Pé na Estrada", na pioneira tradução de Eduardo Bueno. Posso dizer que Jack Kerouac foi meu primeiro professor na Universidade. E foi o mais provocador. 

Aprendi duas coisas com ele. A primeira é que você deve se movimentar. Um homem parado é um livro de uma página só. Vazio, sem vida, sem histórias a serem contadas. Jack desenvolveu uma prosa única, e ela foi sua ferramenta para transformar os corações e mentes de gerações inteiras. Jack, através das palavras, colocou milhões de pessoas em movimento. Graças a ele, os jovens tiveram coragem de fugir de destinos pré-fabricados pelo mundo adulto. 

A segunda coisa que o Professor me transmitiu foi o amor pela prosa. As viagens em si servem para uma pessoa encher sua caneta de tinta. Porém, mais do que a própria jornada, minha ânsia era por aprender a escrever. A prosa dá voz aos nossos pensamentos, e estabelece uma conversa mental, trazendo os leitores para um diálogo. E essa conversa é combustível para a vida. Com o tempo, entendi que, quando escrevo, seja uma música ou um texto, me sinto mais vivo.  

 

13 de novembro 

A viagem não poderia ter começado de maneira mais dramática. Estávamos no mezanino do aeroporto, nos refrescando, sentindo aquele ânimo leve que antecipa a jornada ao desconhecido. Ela havia lido que o Parque Torres del Paine também carimba o passaporte dos visitantes. "Vai ficar junto com o de Machu Picchu e o de Salar de Uyuni". Foi então que descobriu que havia pego o passaporte vencido. E começou o desespero. Tentei acalmar as coisas, dizendo que talvez a imigração aceitasse a carteira de motorista.  

Corremos para o embarque internacional. Com a voz em pânico, perguntamos ao cobrador do código de barras, que não soube informar, disse para perguntarmos na imigração. Passamos correndo pelo detector de metais, que se assustou, quis nos brecar, eu disse "é uma emergência", e em poucos segundos estávamos em frente ao agente de imigração. "Não, eles não aceitam carteira de motorista, apenas a carteira de identidade. E é só na Argentina, o Chile não aceita, porque não é do Mercosul. Mesmo que eu liberasse aqui, vocês vão chegar lá e não vão entrar."   

O desespero ficou mais forte. "Vamos perder o voo. Vai você. Eu nunca fiz isso. Vai você e eu fico", e eu respondi, claro que não. Olhei no relógico, havia exatamente uma hora para o avião decolar. Corremos para a pista de carros.   

Abri o celular para chamar o Uber, mas vi um velho e bom taxi à espera de passageiros. Entramos com os nervos à flor da pele, "precisamos ir e voltar voando", ele já sacou tudo "esqueceram documento", eu pedi "o mais rápido que o senhor puder", e ele respondeu "em segurança". O taxista já sabia o melhor trajeto, o mesmo que eu estava bolando mentalmente, e não precisamos falar muita coisa, ele apenas foi driblando os carros no Eixão, até o outro lado da cidade, mas sem botar ninguém em perigo evidente. Na volta, decidiu pela L4, por causa de uma obra no metro do Eixão sul, o trânsito estava parado. Era mais longe e há uns cinco semáforos que podem atrasar o fluxo, mas pegamos todos os sinais verdes, por intevenção divina. A conta ficou R$125, entregamos R$150 para ele, "o troco é seu, muito obrigado".    

O guarda do detector de metais nos viu e falou "já voltaram? Tão prontos para correr na São Silvestre". Corremos como loucos até o embarque, que àquela altura estava formando as filas. Demorou para a adrenalina baixar, mas enfim estávamos indo para a Patagônia, um lugar exótico que não sai do meu imaginário, desde que li "Dr. Pasavento", de Enrique Vila-Matas.  

Observei as luzes de Brasília se distanciando lá embaixo, enquanto o avião atravessava um colchão de nuvens noturnas. Uma frase do Dr. Pasavanto continuava ecoando em minha mente, “Em menos de uma hora estaria diante de meu fim do mundo, diante de minha Patagônia pessoal”. Há em mim, assim como para o Doutor Vila-Matas, essa atração pela Patagônia, em que existe “uma pessoa por quilomêtro quadrado e reina o silêncio."   

  

26 de novembro   

Dirijo a 140 km/h na estrada reta que liga El Calafate a Puerto Natales. Por quilômetros, há apenas a vastidão da planície patagônica e suas montanhas distantes. Se passaram doze minutos desde que vi o último caminhão, o asfalto é a última marca de civilização. Vejo uns poucos carneiros sendo conduzidos por um gaucho a cavalo, montado no pelego e trajando bombacha, lenço e chapéu, à imagem de seu pai, avô e bisavô.   

Creio que seria muito oportuno ter algum pensamento sublime, uma epifania, nesta estrada para o fim do mundo. É um pensamento em vão, pois não consigo elaborar qualquer ideia além de mirar a paisagem. O sublime está à frente, no contorno de pedras. Por onde quer que se olhe, a fotografia está armada diante de cenários imponentes. Há poucas coisas tão concretas quanto a cordilheira dos Andes, um maciço montanhoso com um véu branco, emergindo do oceano Pacífico e tocando o céu. Lembro-me de uma frase de Philip Levine que li no avião, "aqui o real acontece".  

Com o passar dos quilômetros, a paisagem deslumbrante torna-se monótona, instigando o sono e o cansaço. Ela dorme ao meu lado, não tenho ninguém para conversar além de mim mesmo. Concentro-me à direção, pilotando a máquina, trocando marchas, observando o deslocamento do mapa no GPS, desviando dos buracos que surgem na rodovia.   

É impossível não pensar no dia de eleições que está ocorrendo no Brasil. Eu não poderia estar mais distante, física e espiritualmente, desse fenômeno angustiante criado pelo Homo Sapiens. Aqui, na ponta austral do continente, nada daquilo importa. Apenas o real, aquilo que está à frente do para-brisa. Você, a máquina e a velocidade. Correndo em linha reta, em direção ao vazio no horizonte.   

Ligo a biblioteca do Spotify, e aperto play em "Summertime". O som do trompete irrompe nas caixas do carro. A música é como a estrada. O destino de ambas é chegar ao fim, porém, importa menos o final e sim como ela é percorrida. Quando estamos envolvidos com a estrada e com a música, o tempo deixa de existir, os problemas ficam do lado de fora. A mente entra no estado de fluxo, só se anda para frente, nota a nota, metro a metro.  

Meu pensamento corre solto pelas estepes, embalado pelo solo de trompete, galopando junto com os 112 cavalos do motor Volkswagen.    

  

29 de novembro  

Caminhamos rumo ao mirador Cuernos, de onde se observa uma das partes mais impactantes do maciço Torres del Paine. A praia que antecede a trilha é um cenário insólito. Uma praia de cascalhos, com blocos de gelo encalhados perto da arrebentação. Há uma camada de gelo derretido na beira do lago, que faz um barulho indescritível quando as ondas quebram.  

Tiramos fotos e seguimos a trilha até o mirador, onde quase nenhum turista vai, pois é longe. Começa numa subida íngreme pela encosta de um morro recheado de árvores tortas. Andamos em condições extremas. Houve uma tempestade à noite, a trilha está cheia de lama, o céu permanece carregado. O vento é tão forte que desestabiliza nossos corpos. Somos molhados pela água do Salto Grande, a cachoeira formada entre os lagos Nordenjinsk e Pehoe. Pensamos em desistir três vezes. A rajada é mais forte nos vales, pois precisa se afunilar para seguir seu destino, e pode ganhar três vezes a velocidade original. Seguimos. Estamos sem água para beber. Passamos pela carcaça da coluna vertebral de um guanaco. A sede aperta. Paramos numa praia, molho a mão, trago um pouco de água gelada à boca, é possível sentir fragmentos de gelo.    

Após um bom tempo, chegamos à base do mirador, onde dois turistas estão em silêncio. Nos sentamos aos pés do gigante. O Cuernos é o segundo pico em altura do Parque. Sua visão é contundente. Os outros dois turistas vão embora e ficamos à sós. Contemplar essas formas gigantes é um exercício de meditação. São massas antigas de magma, rocha, gelo e neve. Testemunhos das eras, de um tempo que não era tempo, tempo que não passava nem existia.  

O que de fato você enxerga nesses paredões é a ausência de sentimento. Apenas são, sem sentir. Os gigantes nos ajudam a lembrar que as expectativas não importam para o universo, e que você pode soltá-las na corrente fria da Patagônia. Seria poético imaginá-los como bolhas de sabão que se estouram ao ganhar altitude. Mas expectativas são mais como pipas, nós podemos soltá-las, mas há um cordão nos ligando a elas.  

Avanço no exercício de liberdade. Faz sentido se agarrar tanto a planos inalcançáveis, hábitos viciados, empregos automáticos e relações cheias de cicatrizes? É uma pergunta deslumbrada e infantil, e talvez por isso mesmo, nos faz sentir leveza ante os monumentos de pedra. A sociedade nos incute um hábito de cumprimento contínuo de expectativas dos outros. Chefes, pais, mães, irmãos, cônjuges, amigos. E de nós mesmos. A visão fria da rocha me inquere "as expectativas são reais?". Uma resposta fácil: pegue o que você ama, se livre do resto. Mas não existe resposta fácil.    

O vento sopra, e esse é o som que se ouve nos campos silenciosos. Uma lufada empurra as nuvens, dando espaço ao sol. A luz amarela nos atinge, se esparramando por todos os lados. O azul do lago Nordenskjold reluz numa cor do Caribe, azulado forte, intenso, único. Isolar-se é um encontro com as coisas sagradas da Terra, como disse Jack Kerouac. Por um breve, porém, infinito momento, é possível sentir o sagrado te inundando. É maior que nós, não cabe em palavras. Em nossa existência humana perplexa, frágil, resta-nos arrancar sentido das pedras.    

Tiro a camisa e sinto no peito a ventania forte, gelada. A pele arrepia. Sinto-me vivo e desperto. Ela me fala que quem fica tirando a camisa ao léu é o Vladimir Putin, e que está na hora de ir embora. Visto a camisa e pegamos o rumo de volta.    

Uma música toca em minha mente. Livre, desperta, uma pipa voando nessa terra desolada. Ouço uma sequência bonita de acordes, parece Pink Floyd. É uma melodia escrita no ar, escutada apenas uma vez, somente por mim. É curioso que no silêncio ouvimos melhor a música interior, aquela que sempre existiu. Escrita no DNA e submersa em nosso sangue.